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Articulos & Filosofia – A violação dos direitos humanos

“Bandido bom é bandido morto”. A violência dos criminosos contra a sociedade.

Ao centrar-se na narração em off do Capitão Nascimento, o filme Tropa de Elite apresenta ao tele espectador o ponto de vista e a experiência concreta de um policial que está integrado ao funcionamento do sistema policial, mas que reflete autonomamente sobre a própria prática, conferindo sentido ao mundo e às suas ações, o que desestabiliza o olhar pré-fabricado pelo sistema e sobreposto às experiências subjetivas.

De fato, ao optar pelo não apagamento da subjetividade, o enredo faz emergir uma série de relações de conflito, nas quais as lógicas instrumentais de ação estão sempre em embate com o modo como os próprios sujeitos atribuem sentido ao mundo. A articulação do enredo de Tropa de Elite é feita por um narrador que, ao se dividir entre seus dilemas pessoais e sua missão como agente institucional, busca revelar como os policiais enxergam a questão do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Em um primeiro plano, o filme parece reproduzir a visão de que, para que a sociedade funcione bem, para que o equilíbrio de forças seja mantido e o funcionamento das instituições seja máxima, “os criminosos são inimigos a quem se deve exterminar e os usuários são financiadores hipócritas desse negócio”. Mas, em segundo plano, essa visão nos parece muito simplista, uma vez que não abrange todas as facetas das práticas sociais que envolvem as interpretações que cada ator social faz de seus pares. Assim, se para os policiais “bandido bom é bandido morto”, para os traficantes e moradores de favela “policial bom é policial morto ou corrupto”. Sob esse viés, as análises de certas cenas do filme aqui realizadas mostram que, na medida em que nosso entendimento da relação “policial/bandido” é regido por lógicas institucionais e padrões culturais do senso comum que reproduzem uma visão militarizada desse conflito, é quase impossível estabelecer outra lógica de entendimento que recorte e destaque as injustiças naturalizadas no pano de fundo da sociabilidade brasileira atual.

A violência policial nos fornece um novo viés de reflexão: identificar em Tropa de Elite elementos e representações que apontem para um tipo de violência que, apesar de se fazer mais evidente no plano institucional e nos modos sancionários dos aparatos de poder, também pode ser detectada no plano simbólico, onde destitui os indivíduos (seja entre policiais, seja entre traficantes) de respeito e dignidade, reificando-os e reduzindo-os a inimigos que devem ser aniquilados.

Marcos Cantarani